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    Uma morte por dia: como enfrentar a nova realidade das motos nas ruas do Rio?

    7 hours ago

    Como enfrentar a nova realidade das motos nas ruas do Rio? Uma série de reportagens do RJ2 tem mostrado, desde a semana passada, como as motos transformaram o Rio de Janeiro. Elas ocuparam o espaço deixado por um transporte público considerado insuficiente por muitos passageiros, criaram uma nova forma de trabalho por aplicativos e passaram a pressionar hospitais e equipes de resgate diante da explosão de acidentes. No último episódio, a pergunta deixa de ser por que as motos cresceram para se tornar outra: como conviver com essa nova realidade? Hoje, a Secretaria Estadual de Saúde registra, em média, uma morte de motociclista por dia. Apenas entre janeiro e junho deste ano foram 257 óbitos, além de milhares de feridos. Mais sobre a série do RJ2: Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos; veja por quê 'Descanso é sentado na moto': a rotina dos entregadores 'A gente enxuga sangue': acidentes fazem 144 vítimas por dia Para quem sobrevive, as consequências muitas vezes são permanentes. Bruno, de 24 anos, pilotava motocicletas desde os 13. Já havia sofrido outros acidentes, mas o último mudou completamente sua vida: há seis meses, teve uma perna amputada. "Agora, para trabalhar, esse é o problema." Pai de dois filhos, ele entrou com pedido de aposentadoria por invalidez e deixou o mercado de trabalho justamente no início da vida produtiva. Segundo o pesquisador Erivelton Guedes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o impacto vai muito além das estatísticas de trânsito. Para cada motociclista morto, há cerca de 112 atendimentos hospitalares. Um terço dessas vítimas fica com sequelas graves e muitas acabam dependendo da Previdência Social. "Vai ter um custo social muito grande, acumulado ao longo dos anos." O que pode mudar? O crescimento das motos é um fenômeno nacional e também entrou na pauta do Congresso. Um projeto de lei complementar em tramitação pretende criar um marco legal para o trabalho de motociclistas por aplicativo. Entre as propostas estão remuneração mínima, proteção previdenciária e maior transparência das plataformas na gestão das corridas. O texto está em análise em uma comissão especial da Câmara dos Deputados. Na Câmara Municipal do Rio, outro projeto busca regulamentar o transporte de passageiros por motocicletas realizado por aplicativos. A discussão ganhou força após a morte da publicitária Alexia Nunes, de 27 anos, durante uma corrida, em novembro do ano passado. A jornalista Maria Luisa de Melo, irmã de Rafael Pereira — morto em janeiro em um acidente na Linha Amarela durante uma viagem de moto por aplicativo —, afirma que a discussão não pode se limitar à responsabilidade dos condutores. "O trabalhador também está morrendo. O passageiro está morrendo. É preciso fiscalização." Aplicativos, fiscalização e infraestrutura Especialistas defendem que as empresas de aplicativo participem mais ativamente da prevenção. A professora Marina Baltar, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que as plataformas possuem informações capazes de ajudar o poder público a identificar pontos críticos, fiscalizar velocidades e orientar políticas de segurança. Ela também defende treinamento contínuo para motociclistas profissionais. A Prefeitura do Rio afirma manter uma parceria com plataformas para aplicar punições a entregadores que desrespeitam regras de trânsito, mas reconhece que ainda é preciso avaliar a efetividade das medidas. Motofaixas Motofaixa na Autoestrada Lagoa-Barra, em São Conrado Reprodução/TV Globo Outra aposta é a expansão das motofaixas. O município iniciou a implantação em 2024 e pretende chegar a 75 quilômetros até o fim deste ano. Por enquanto, só 11% foram entregues. Novos trechos estão sendo criados no Leblon e na Lagoa. Especialistas afirmam que elas ajudam a organizar o fluxo, mas alertam que, sozinhas, não resolvem o problema e podem até estimular velocidades maiores se não forem acompanhadas de fiscalização. Educação e transporte público Para o tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, experiências internacionais mostram que a redução dos acidentes depende de três pilares: identificar os pontos com maior número de ocorrências, melhorar a infraestrutura viária e investir em educação no trânsito. "Não há caminho fora da educação." Falta de transporte público competitivo Já a professora Marina Baltar avalia que nenhuma medida terá efeito duradouro sem melhorar o transporte público. Segundo uma pesquisa da Coppe com mais de 2 mil motociclistas, o principal motivo para escolher a moto é o tempo. Mesmo sentindo insegurança, a maioria continua utilizando esse meio de transporte porque consegue chegar mais rápido ao destino. "O transporte público precisa oferecer um tempo competitivo."
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