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    'Tive estresse pós-traumático e fiquei afastada', diz professora sobre entrada de PMs armados em escola após denúncia sobre desenhos de orixá

    9 hours ago

    PM diz que diretora de escola municipal de SP queria "impor ideologia" A professora da EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, que se sentiu coagida com a entrada de policiais militares armados na unidade, contou ao g1 com exclusividade que desenvolveu sintomas de estresse pós-traumático e pediu afastamento do cargo após o episódio. Na época, ela ocupava interinamente o cargo de diretora da escola. Em novembro do ano passado, a polícia foi acionada pelo pai de uma aluna que se revoltou com um desenho de Iansã — uma orixá presente em religiões de matriz africana como o Candomblé e Umbanda — feito pela filha de 4 anos. Soldado da PM, o homem alegou que a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”. Câmeras corporais dos PMs registraram o atendimento de toda a ocorrência e o momento em que o tenente Ronald Camacho, comandante da equipe, acusou a então diretora de tentar "ditar sua ideologia" ao explicar atividades sobre cultura afro-brasileira desenvolvidas pela escola. Apesar do nervosismo, ela afirma que só conseguiu sustentar a discussão porque tinha segurança de que o trabalho desenvolvido pela escola seguia a legislação e fazia parte do currículo estabelecido pela Secretaria Municipal da Educação. Com 20 anos de experiência em escolas infantis, a educadora, que prefere não ser identificada, contou que adoeceu e precisou tomar medicação para controlar transtornos de ansiedade. "No dia e no mês que se seguiram, eu fiquei afastada, precisei de apoio psicológico, pois tive sintomas de estresse pós-traumático. Eu fui atendida em casa pela médica, não tinha condição de sair. Então, não foi uma situação fácil nem tranquila", relata. LEIA MAIS: Polícia Civil conclui que PMs seguiram protocolo ao entrar armados em escola após denúncia sobre desenho de orixá Pai que acionou PM em escola por causa de desenhos de matriz africana é indiciado por intolerância religiosa Professoras se sentem coagidas com a entrada de policiais armados em escola. Reprodução No dia da discussão com o tenente, o filho da professora — que também é aluno da EMEI — estava na escola e presenciou toda a cena. Segundo ela, a criança também precisou de acompanhamento psicológico, além de ter desenvolvido medo da polícia. Após o episódio, ele chegou a ter uma crise nervosa ao ouvir uma viatura se aproximando. "Meu filho ama policiais. Depois desse dia, ele passou a ter muito medo. Muitas vezes, quando ele via carro de polícia na rua, ele falava: 'mãe, são aqueles policiais do mal de novo?' [...] Nos primeiros dias foi bem difícil, ele ficava com muito medo e também precisou de um apoio psicológico." Para a educadora, a abordagem foi marcada por hostilidade. Ela afirma que, ao apresentar argumentos sobre o currículo escolar, o tenente elevou o tom de voz, adotou uma postura "impositiva e machista" e tentou deslegitimar suas explicações recorrendo à autoridade da farda. Ela avalia que o episódio evidencia a necessidade de formação de agentes públicos para lidar com temas relacionados à diversidade e à liberdade religiosa e critica o fato de crenças pessoais influenciarem a atuação de servidores. A gente tem que entender que existe um limite. No caso da escola, ela não é uma extensão da minha religião, da minha igreja. Assim como deveria estar ainda mais claro para os servidores que atuam na segurança [...] Existe uma democracia, uma liberdade religiosa e, independentemente da religião que eu tenha, meu procedimento não deveria passar pela minha crença pessoal. A professora também questiona a forma como a ocorrência foi conduzida. Para ela, não havia justificativa para policiais entrassem armados em uma escola de educação infantil para tratar de uma questão pedagógica. "Um policial que é um tenente, que usa aquele tipo de armamento, poderia ter se resguardado. Que perigo será que eu ou as crianças da escola estavam oferecendo?" Na avaliação da educadora, o caso também reflete um ambiente de crescente intolerância e de tensão na relação entre famílias e escolas. "A escola é uma via de acesso ao conhecimento. A professora é uma pessoa muito importante na vida da criança, mas não é a única verdade. O que a criança vai absorver e levar para a vida dela não é ninguém que vai determinar, é só a própria criança." Tenente Ronald Camacho foi o comandante responsável por atender a ocorrência de intolerância religiosa na escola. Montagem/g1/Reprodução Imagens de câmeras corporais As imagens mostram a diretora explicando ao tenente Ronald Camacho que a atividade fazia parte de um projeto pedagógico baseado nas leis federais 10.639 e 11.645, que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. "O que a gente tem aqui na escola é o ensino da cultura afro-brasileira, um projeto referendado a partir dos documentos da prefeitura. O munícipe em questão é de uma religião cristã. Ele não gostou dessa temática. Ele entrou ontem de maneira agressiva na escola, coagiu a professora, gritou com ela apontando o dedo no rosto dela, arrancou o desenho da criança que estava o nome da filha dele", conta a diretora. Segundo a educadora, o trabalho desenvolvido na unidade seguia orientações da Secretaria Municipal de Educação e não se tratava de ensino religioso. Durante a conversa, porém, o tenente contesta a explicação e argumenta que o conteúdo tinha caráter religioso. "Como não? Eu vi um desenho que está escrito Iansã", afirma o policial em um dos trechos da gravação. A diretora responde que o agente havia visto apenas parte da atividade e explica que o trabalho foi desenvolvido a partir do livro infantil "Ciranda de Aruanda", integrante do acervo distribuído às escolas da rede municipal. Segundo ela, a obra aborda a mitologia dos orixás em uma perspectiva cultural e literária. O comandante, no entanto, insiste na interpretação de que o tema estava relacionado a uma religião e cita uma lei federal para sustentar que o pai tinha o direito de se opor ao conteúdo. A discussão se intensifica quando a diretora questiona a presença de um grande efetivo policial armado em uma escola de educação infantil para tratar de uma denúncia feita por um pai que sequer estava no local naquele momento. "Chega um efetivo armado para tratar de uma ação de um munícipe que nem está aqui", afirma. A educadora também diz que a situação representava uma forma de coação contra a escola e os funcionários. O policial discorda e afirma que o acionamento da PM era um direito do pai. Em outro momento, o tenente acusa a diretora de não querer ouvi-lo e de interrompê-lo durante a conversa. "A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar o seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora hoje. E se tiver alguma medida, eu tomarei e voltarei aqui com uma medida administrativa", finaliza. Veja desenhos ligados à cultura africana que foram alvos de PMs armados em escola infantil PMs vão à escola em SP com fuzil após pai reclamar de desenhos de matriz africana Minutos depois, a diretora telefona para uma supervisora de ensino da Diretoria Regional de Educação do Butantã e coloca a ligação no viva-voz para que ela converse com o comandante. Durante o diálogo, a supervisora questiona se o caso configurava intolerância religiosa ou apenas uma discordância em relação ao conteúdo pedagógico apresentado pela escola. O policial informa que a equipe foi acionada por uma denúncia de intolerância religiosa e afirma que não possui conhecimento técnico para avaliar a questão educacional e cultural discutida no local. A supervisora rebate: "isso é uma tratativa pedagógica. Isso é uma discussão pedagógica". A supervisora ainda responde que intolerância religiosa ocorre quando há desrespeito a uma religião e não quando uma família discorda de uma atividade pedagógica desenvolvida pela escola. Em outro trecho da conversa, o tenente afirma que buscava manter uma posição neutra diante do conflito. "A escola tem uma defesa, seus princípios e ensinamentos, da construção socioeducacional da criança. O pai tem uma opinião dele. Estou tentando ouvir", afirma. A atuação dos policiais que entraram armados na escola infantil e as imagens as câmeras corporais estão sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de SP Reprodução/Google Street View
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