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    'Taxa de guerra': o mecanismo usado por facções para arrecadar dinheiro em áreas dominadas

    8 hours ago

    Milícia e tráfico transformam comerciantes e clientes em reféns no Rio de Janeiro O domínio exercido por milícias e facções criminosas sobre a venda de produtos em comunidades do Rio de Janeiro vai além da imposição de fornecedores e do aumento dos preços. Segundo as investigações, o esquema funciona como uma espécie de sistema paralelo de tributação, criado pelos grupos criminosos para arrecadar recursos e financiar suas atividades. Conhecida entre os próprios integrantes das organizações como "taxa de guerra", a cobrança é embutida no preço de mercadorias vendidas em áreas dominadas. O dinheiro obtido com a comercialização de produtos como farinha de trigo, frango assado, água, gás, hortifrúti e materiais de construção seria utilizado para manter a estrutura das facções e milícias, incluindo a compra de armas e equipamentos para defender territórios de invasões rivais ou de operações da polícia. Na prática, o mecanismo funciona por meio da imposição de fornecedores escolhidos pelos criminosos. Comerciantes afirmam que são obrigados a adquirir mercadorias de determinadas distribuidoras, muitas vezes por preços acima dos praticados no mercado. Sem concorrência, os custos aumentam e acabam sendo repassados aos consumidores. "O imposto que o governo nos cobra, quem está cobrando agora é a milícia, e ficando para ela. Ela não reverte isso em qualidade de vida para ninguém. A cada dia ela é mais dona. Esse lucro é todo para eles. Então fica tudo muito mais caro para essa pessoa que é desassistida pelo Estado", afirma um morador. Monopólio do crime: tráfico e milícia controlam até quem fornece comida para mercados e padarias no Rio Monopólio do crime A lógica é semelhante à de um monopólio. Os criminosos determinam quem pode vender, quais produtos devem ser comprados e por qual valor. Quem descumpre as regras corre risco de sofrer ameaças e retaliações. Em alguns casos, fornecedores concorrentes são expulsos das regiões dominadas. Segundo especialistas, os maiores prejudicados são justamente os moradores dessas áreas. Além de conviverem com a falta de opções, eles acabam pagando mais caro por produtos básicos do dia a dia. "Essas famílias já são muito vulneráveis ao processo inflacionário. E se você ainda impõe uma taxa extra para essas famílias, o produto chega mais caro para elas", diz um especialista ouvido pela reportagem. As consequências também atingem a economia formal. Empresas que antes abasteciam essas regiões perdem mercado de forma repentina quando organizações criminosas passam a controlar a distribuição. Para comerciantes, o resultado é um ambiente de medo e dependência. "O lucro é todo para eles", resumiu um empresário. "Você trabalha para eles, você vira o funcionário deles." Esquema da farinha: dono de padaria foi morto após se recusar a comprar produto imposto por milícia Prisões Na última quarta-feira, a Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em endereços relacionados às empresas investigadas. Em um dos depósitos, os agentes encontraram produtos fora da validade e prenderam um homem em flagrante. Em outro local, foram identificadas condições precárias de armazenamento, com alimentos próximos a fezes de animais. Enquanto isso, comerciantes relatam sensação de impotência diante das ameaças. "Eu te confesso, eu perdi a vontade de trabalhar. Em breve, se Deus quiser, eu passo minha loja. Você trabalha para eles, vira funcionário deles", afirmou uma das vítimas ouvidas pelo Fantástico. Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.
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