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    Servidor da Prefeitura de Manaus é denunciado por cobrar para facilitar acesso ao Bolsa Família: ‘R$ 180, é só um filho'

    11 hours ago

    Servidor de Manaus é denunciado por cobrar para facilitar acesso ao Bolsa Família O servidor da Prefeitura de Manaus José Nascimento dos Santos foi denunciado ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público do Amazonas (MPAM) sob suspeita de cobrar indevidamente valores de famílias de baixa renda para atualizar cadastros e facilitar o acesso ao Bolsa Família. Segundo a representação, as abordagens ocorriam no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) localizado no bairro Alvorada, na Zona Centro-Oeste da capital amazonense. Em gravação anexada à denúncia e obtida com exclusividade pelo g1, o funcionário municipal admite trabalhar no CRAS, detalha o serviço paralelo, estipula o valor de R$ 180 para família com um filho e afirma que ele e um colega deixariam o cadastro “de um jeito” para que a interessada pudesse receber o benefício. A gravação foi feita em julho deste ano. Segundo a denúncia, o contato começou por mensagens de WhatsApp e seguiu por meio de ligação. A pessoa que conversou com o servidor na conversa gravada se apresentou como interessada em receber o Bolsa Família e disse ter obtido o número por indicação de uma terceira pessoa que já teria sido atendida por José Nascimento. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp O áudio foi anexado à representação entregue na quinta-feira (20) ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e à procuradora-geral de Justiça do Amazonas, Leda Mara Nascimento Albuquerque. Agora no g1 Durante a ligação, José Nascimento pergunta sobre a composição familiar da interessada, a existência de emprego formal, o recebimento de pensão e a data da última atualização do Cadastro Único (CadÚnico). Ao ser questionado sobre o procedimento, ele reafirma que trabalha no CRAS. Em seguida, depois de saber que a família tinha apenas um filho, informa o preço. “Se for fazer pergunta, eu trabalho no CRAS; se for fazer pergunta, não vou fazer. [...] Tu não quer ser ajudada? [...] R$ 180, é só um filho”, afirma o servidor na gravação. Na sequência, José Nascimento diz que ele e um colega fariam uma nova atualização dos dados e deixariam o cadastro “de um jeito” para que a interessada pudesse receber o Bolsa Família. Ele explica que o pagamento seria feito pelo governo, enquanto os dois ficariam responsáveis pela preparação do cadastro. “Meu colega aí atualiza tudinho”, afirma. A conversa também registra o servidor indicando como, segundo ele, os dados deveriam constar no cadastro. José Nascimento afirma que a renda registrada deveria ficar entre R$ 110 e R$ 120 e que um valor superior poderia impedir o recebimento do benefício. Conforme a denúncia, a declaração do servidor municipal indica que a atuação oferecida não se limitava a orientar a interessada sobre os procedimentos oficiais, mas envolvia uma possível intervenção nos dados cadastrais para favorecer a concessão do benefício. O documento encaminhado aos MPs afirma que a situação é ainda mais grave porque o Cadastro Único é utilizado pelo poder público para identificar e caracterizar a condição socioeconômica das famílias e subsidiar a concessão de benefícios. Segundo a representação, eventual alteração, omissão ou adequação de informações para criar artificialmente uma condição de elegibilidade pode comprometer a seleção das famílias e resultar em pagamentos indevidos. A denúncia relata ainda que José Nascimento pediu sigilo sobre a negociação. Depois de definir o valor, ele disse no áudio: “Fala nada pra ninguém não, entendeu?”. Na mesma conversa, afirmou atender mais de 400 famílias. O diálogo não terminou na cobrança. José Nascimento também citou o acompanhamento do cadastro e dito que, caso o benefício não fosse liberado no prazo esperado, a situação seria novamente analisada. Ele afirmou ainda ter atualizado, no mês anterior, o cadastro da pessoa que havia indicado seu contato. Ele também disse que ela já havia recebido o benefício. Segundo o servidor, essa pessoa é sua “cliente de dois anos” e aquela era a terceira vez em que ele a ajudava na atualização cadastral. José Nascimento trabalha há mais de 20 anos na Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), segundo a denúncia. Em consulta ao Portal da Transparência, a reportagem confirmou que ele está lotado há 20 anos e nove meses na Divisão de Serviços Funerários, vinculada à Semasc. A representação sustenta que a atividade descrita nas conversas envolveria cobrança por um serviço público que deve ser prestado gratuitamente e que a atuação teria como alvo pessoas em situação de vulnerabilidade que procuram a assistência social para ter acesso a benefícios. De acordo com a denúncia, a cobrança particular por servidores para executar ou facilitar procedimentos públicos cria uma condição financeira que não existe na legislação e pode produzir tratamento privilegiado para quem tem condições de pagar. A representação também pede apuração sobre a possível participação de um segundo servidor mencionado na gravação, mas ainda não identificado. Em conversa por telefone, servidor negociou inclusão de mulher no Bolsa Família por R$ 180. g1 AM Mulher relata abordagem dentro de órgão público Uma mulher incluída na denúncia apresentada aos órgãos ministeriais também afirma que foi abordada por José Nascimento em 2024, dentro do CRAS Alvorada. Na ocasião, ela buscava atendimento para tentar acessar o Bolsa Família quando teve contato com o servidor, que, segundo o relato, se apresentou como alguém capaz de ajudá-la a resolver a situação. Em entrevista exclusiva ao g1, a mulher confirmou que José Nascimento se apresentou como uma espécie de facilitador para realizar o cadastro necessário à tentativa de obtenção do benefício. Ela informou que o servidor passou a tratar diretamente da possibilidade de fazer ou atualizar os dados cadastrais e deu orientações específicas sobre como o procedimento poderia ser realizado. Ela também apresentou ao g1 mensagens trocadas com José Nascimento em 2024 e em abril deste ano. A mulher relatou ainda que recebeu instruções detalhadas sobre o procedimento e sobre as informações que deveriam constar no cadastro. De acordo com o relato, José Nascimento passou a tratar diretamente da possibilidade de viabilizar o acesso ao Bolsa Família por meio da atualização dos dados cadastrais. "Quando eu estava saindo, um senhor tocou o meu ombro. Ele falou assim, olha, eu posso te ajudar para você parar de ficar vindo aqui. Aí ele falou assim: Olha, eu vou te dar o meu número e tu manda mensagem para mim. A gente conversa por lá", relatou a mulher. A conduta descrita por ela coincide, segundo a denúncia, com o conteúdo do áudio obtido pelo g1, no qual o servidor fala, com pessoa distinta, sobre a realização e a atualização de cadastros. Durante a entrevista, a mulher descreveu ao g1 a abordagem feita pelo servidor e as orientações que recebeu em conversa mantida com o servidor. Para sustentar o relato, apresentou as conversas mantidas por aplicativo que, segundo ela, registram o contato direto com José Nascimento e mostram a sequência das tratativas relacionadas ao cadastro e ao acesso ao programa. O g1 procurou o servidor mencionado na denúncia, José Nascimento, para solicitar posicionamento sobre o caso. Ele se limitou a afirmar que não trabalha no CRAS, embora o Portal da Transparência indique sua atuação, há mais de 20 anos, na Semasc. O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Amazonas (MPAM) também foram questionados pela reportagem se as recebidas foram recebidas, quais providências foram adotadas até o momento e se os órgãos pretendem abrir investigação sobre o caso. Até a publicação desta reportagem, não havia retorno. O que diz a Prefeitura O g1 procurou, ainda, a Prefeitura de Manaus e a Semasc para saber se José Nascimento continua trabalhando no CRAS Alvorada, se a administração tem conhecimento das acusações e quais providências pretende adotar diante da denúncia. O espaço permanece aberto para manifestação. Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro Alvorada, em Manaus. Divulgação/Semcom
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