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    Roupa feita de pele humana? Com peças extravagantes, estilista de SP questiona a 'demonização do feio' e sonha em vestir Lady Gaga

    2 months ago

    Roupa feita de pele humana? Estilista de SP ganha o mundo com peças extravagantes Reprodução Uma regata que parece ter sido feita de pele humana, com textura, cicatrizes e tatuagens. Embalada como comida, numa marmita de alumínio. Um vídeo mostrando exatamente isso viralizou e já ultrapassa 20 milhões de visualizações. À primeira vista, pode parecer estranho (e este é o ponto). Criada pela paulistana Ludmila Obrigon, a marca batizada com seu sobrenome nasceu de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na faculdade com a proposta de provocar e já vestiu nomes como Anitta, Ludmilla e Luísa Sonza. Spoiler: a meta é a Lady Gaga. A recepção nas redes sociais foi um misto de fascínio e horror. “Imagina se os Correios têm que abrir a caixa”, comentou um usuário. Outros, em diversos idiomas, incluindo o russo, pareciam confusos: “Me diz o que é isso, por favor”. Para Ludmila, essa reação é quase um experimento social que comprova sua pesquisa acadêmica sobre a “demonização do feio e do esquisito”. Criada sob influência do rock emo e do desenho, Ludmila sempre se interessou pelo que era considerado diferente. Ingressou na faculdade de moda mesmo sem saber costurar, mas desenvolveu uma identidade visual específica e conceitual ao longo dos semestres. “No final do ano de conclusão, um colega que se encantou pelo meu trabalho me questionou: ‘O que vai ser da Provoke agora?'. Foi com essa pergunta que eu comecei a tirar do papel o sonho de ter uma marca”, contou ela em entrevista ao g1. Com a chegada da pandemia, a marca foi lançada experimentalmente no final de 2020, abandonando o nome Provoke e adotando o Obrigon de hoje. No início, não havia investimento, e foi marcado por testes até que a identidade se consolidasse. Da cultura pop ao 'estranho familiar' As criações da estilista bebem de fontes variadas, desde tardes assistindo à MTV para ver clipes de Lady Gaga e Green Day até a paixão por filmes de terror e diretores como David Cronenberg e Gaspar Noé. Na moda, suas referências passam por nomes como Alexander McQueen e Rei Kawakubo. Mas o seu trabalho mora mesmo no conceito alemão "Unheimlich", ou o “estranho familiar”. Ludmila explica que gosta de tirar elementos comuns, como o corpo ou a pele, de contexto. “Gosto de pegar um elemento extremamente comum, como nosso corpo ou pele, e tirar de contexto, colocar em um lugar em que ele ‘não deveria estar', como a vestimenta. É algo simples que causa uma comoção gigante entre o público, que cria muitas teorias mirabolantes em cima." Segundo o site da marca, o objetivo é “questionar as normas estéticas através da desconstrução do vestuário tradicional e exaltação da auto expressão”. Look Capillus, em látex e cabelo humano, para Drop Etereal, em 2023 Arquivo pessoal O processo manual: 'Como obra de arte' Diferentemente da produção em massa da fast fashion, a Obrigon opera como um ateliê, com um processo inteiramente manual e autoral. Ludmila desenvolveu suas próprias técnicas de manipulação têxtil e aprendeu a trabalhar com o látex já dentro da marca. As peças que mais chamam a atenção, as que simulam peles tatuadas, são justamente as mais difíceis e desafiadoras de se produzir, segundo a estilista. “Preparo pedaço por pedaço de látex, pinto cada um deles, para só depois juntar na modelagem final e desenhar em cima. São dias de processo, como uma obra de arte mesmo”, detalha ela. Roupa feita de pele humana? Estilista de SP ganha o mundo com peças extravagantes O trabalho é feito em pequena escala, muitas vezes pela própria Ludmila, com apoio pontual no ateliê. Um dos sucessos da marca, a Bolsa Pectus, que simula um busto feminino, surgiu a partir de um manequim bem definido que ela utilizou para modelar o látex. A peça já foi usada, por exemplo, pelo trapper Matuê. SP como inspiração A capital paulista é onipresente no trabalho de Ludmila. Para ela, a cidade inspira pela “falta de cor, na confusão de texturas, no brutalismo”. Ela afirma que o ambiente cosmopolita foi essencial para o surgimento da marca. “A Obrigon nasceu em São Paulo que é uma das maiores e mais diversas metrópoles do mundo, sabia que tinha público para a marca aqui.” Embora tenha começado focada na cena eletrônica e no techno, hoje a Obrigon atrai profissionais criativos, como designers, artistas, criadores de conteúdo e arquitetos que buscam peças para se expressar em festivais e ambientes underground. Das revistas ao sonho de vestir Gaga A aceitação no meio da moda tem sido positiva. A Obrigon já estampou grandes revistas do país e também publicações internacionais. Um dos marcos foi a participação no SPFW N59, em parceria com o estilista Dario Mittmann. O caminho para vestir celebridades começou cedo, ainda em 2020, quando uma stylist conheceu o trabalho a partir do desfile de TCC. “É incrível ver meu trabalho em locais de tamanha visibilidade e prestígio”, afirma. Um momento marcante foi vestir Alice Glass, ex-integrante do Crystal Castles, artista que dialoga diretamente com o universo da marca. Mas o grande objetivo internacional permanece. “Com certeza sonho em vestir a Lady Gaga, em quase todo post da Obrigon alguém comenta sobre isso.” Chaveiro de pelúcia azul upcycling, com um olho e rosto feito e pintado à mão Reprodução Após a virada de chave proporcionada pela viralização, a Obrigon planeja expandir seus horizontes. O foco agora é a internacionalização, com a atualização do site para vendas globais e uma maior presença em eventos e na mídia. Hoje, as vendas internacionais ainda são feitas manualmente, o que limita o crescimento, mas ela estuda o lançamento de produtos em escala para o futuro, pensando em preços mais acessíveis, sem abandonar o caráter autoral. Pablo Vittar vestindo Provoke em 2019 Arquivo pessoal
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