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    Justiça condena golpista do Tinder a seis anos de prisão, após prejuízo de R$ 1,5 milhão contra executiva em SP

    há 7 horas

    Renato Sérgio Leandro, de 57 anos, está preso desde maio em um Centro de Detenção Provisória de Mauá, na Grande SP, por aplicar golpes em mulheres que conheceu em redes sociais de namoro. Reprodução/Redes Sociais Um golpista denunciado ao Ministério Público de São Paulo por aplicar golpes amorosos contra várias mulheres foi condenado a seis anos de prisão, em regime fechado, após dar um prejuízo de mais de R$ 1,5 milhão a uma executiva de relacionamento comercial da Zona Oeste da capital paulista. Renato Sérgio Leandro, de 57 anos, está preso desde maio em um Centro de Detenção Provisória (CDP) de Mauá, na Grande SP, após ter tido a prisão decretada pela Justiça, no âmbito do processo em que foi condenado no último dia 19 de outubro. O g1 tenta localizar a defesa dele, mas não obteve retorno. No julgamento, ele admitiu o crime e pediu desculpas à vítima (veja mais abaixo). Renato Leandro foi denunciado pela hoje advogada R.L, de 59 anos, uma de suas várias vítimas na cidade. Ela pediu para não ser identificada, em razão da vergonha e da situação psicológica que viveu nos últimos cinco anos, na busca pela condenação do falsário. Na época em que conheceu Renato, a executiva comercial tinha acabado de iniciar o curso de Direito. Segundo o processo, Renato Sérgio e a vítima se conheceram pelo Tinder em junho de 2021. Na época, R.L estava divorciada e sem companheiro havia cinco anos e disse que foi seduzida e envolvida emocionalmente pelo acusado. “Logo que a gente se conheceu, ele se mostrou um homem raro e cavalheiro, que parecia ter caído do céu. Abria a porta para eu entrar e sair do carro, me levava em casa, pagava os jantares... Logo no primeiro encontro, começou a fazer juras de amor, trocar elogios e dispensar muita atenção”, contou ao g1. Violência Virtual: mulheres são vítimas de extorsão cibernética e estelionato amoroso “Era tempo de pandemia e as coisas tinha acabado de reabrir. Todo mundo passava por aqueles dias de incerteza e solidão. Encontrar um cara que parecia um príncipe parecia um sonho, que depois virou o pior pesadelo da minha vida”, contou a mulher. No processo, a advogada que até então estava apenas no 3° semestre de Direito, contou que Renato Sérgio começou a contar histórias de seus problemas familiares. “Ele se apresentou como um professor universitário de psicologia e psicólogo comportamental, pai de três filhos morando fora do Brasil. E que também cuidava da mãe, que enfrentava uma luta contra um câncer. Poucas semanas depois que a gente se conheceu, ele afirmou que o convênio dele não queria pagar por uma parte do tratamento e ele estava desesperado”, lembra a moça. O primeiro empréstimo pedido foi no valor de R$ 10 mil , que ele pagou quase que integralmente, poucos dias depois. Mas essa mãe foi piorando e ele toda semana vinha com uma novidade a respeito da queda de braço com o convênio médico da idosa. “Em algum momento, ele afirmou que ganhou uma indenização de R$ 1,3 milhão da operadora da mãe e que só estava esperando a liberação da Justiça para receber. Pediu então um empréstimo de R$ 12 mil para dar de calção no hospital que ele ia deixar a mãe, até que o convênio depositasse a grana. Ele sofria, mandava mensagens choroso, ao mesmo tempo que fazia juras de amor e afirmava que ele tinha finalmente encontrado sua alma gêmea”, disse a mulher. “Era tudo tão verossímil e real. Ele ia em casa, me levou no estúdio de trabalho dele. Nada parecia estranho nesse enredo. Ele foi me envolvendo e decidi emprestar a grana. Tava tudo certo, ele tinha histórico de bom pagador e tinha um suposto 'calção judiciário' a seu favor. Chegou, inclusive, a me ofertar com uma joia de família da avó, que dizia ter o valor de R$ 50 mil, como garantia. Mas a joia não passava de R$ 150 reais, eu soube depois", lembrou a moça. Renato Sérgio Leandro, de 57 anos, está preso desde maio em um Centro de Detenção Provisória de Mauá, na Grande SP. Reprodução Viagem ao Canadá Os problemas dele, contudo, não pararam por aí. O falsário disse, dias depois, que ia viajar para o Canadá, no casamento de um dos filhos. Ele ficou alguns dias sem contato diário com a suposta namorada e mandava apenas mensagens esparsas. Essas mensagens rarearam, até que num dia ele escreveu dizendo que tinha feito uma escala nos Estados Unidos para visitar um amigo e tido um infarto. Ele foi encaminhado para um hospital particular que estava cobrando dele mais de R$ 200 mil de despesas hospitalares. Sem ter a quem recorrer, Renato Sérgio Leandro disse, conforme relata a vítima do processo judicial, que só conseguiria voltar ao país e deixar os EUA com o pagamento da conta. “Eu não tinha aquele dinheiro e não sabia o que fazer. Os dias foram passando e conta do hospital só aumentava. E ele se dizia desesperado para voltar ao Brasil e me ver. Foi então que ele mesmo sugeriu que eu pegasse um empréstimo no meu banco para ajudá-lo”, lembrou a mulher. R. L. conta que o dilema de ajudar o suposto grande amor de sua vida martelou sua cabeça por vários dias. As mensagens de carinho, delicadeza iam envolvendo-a, até que a mulher finalmente tomou o empréstimo bancário R$ 322 mil para socorrer o namorado. A promessa era que as parcelas seriam pagas com o pagamento da sentença judiciária milionária do convênio da mãe. O dinheiro foi enviado à conta corrente em nome dele em 29 transferências bancárias registradas no processo e, logo que o dinheiro foi transferido, Renato Sérgio Leandro sumiu. “Nos primeiros dias era um misto de preocupação e desespero, porque não sabia se ele estava vivo ou morto. Como toda a história parecia verossímil, custei em acreditar que tinha caído num golpe”, contou a advogada. A confirmação só veio depois que, em novembro de 2021, quando uma amiga viu a foto do golpista em uma reportagem da TV Record. A na tela durante a exibição da reportagem dizia: “Homem seduz mulheres para pegar dinheiro” e trazia uma série de depoimentos de mulheres que estavam na mesma situação que ela. “A gente nunca quer acreditar que foi vítima de um golpe. Principalmente dessa natureza, de um homem que se aproveitou de uma fragilidade nossa para nos manipular, mentir e nos roubar. É um dos piores sentimentos do mundo, não dá nem para descrever. Tudo desabou”, contou a advogada. Renato Sérgio Leandro está preso por aplicar golpes em mulheres que conheceu em redes sociais de namoro. Reprodução/Redes Sociais Coragem para lutar Por causa do empréstimo, R.L teve que vender o próprio automóvel para cobrir parte dos juros da dívida do cheque especial. Mesmo assim, não conseguiu quitar o empréstimo bancário e a dívida acumulada já passa de R$ 1,5 milhão, em razão dos juros bancários. Ela teve problemas psicológicos, entrou em depressão e até pensou em tirar a própria vida. Mas em vez de apenas lamentar e chorar pelas dores do golpe gravíssimo, a advogada foi a primeira a ingressar com um pedido de investigação na Polícia Civil e no Ministério Público. Ela procurou outras vítimas, encontrou parentes do falsário e arrolou todos no processo que terminou com a condenação de Renato Sérgio Leandro, com ajuda de uma delegada e uma escrivã da 9ª Delegacia de Defesa da Mulher, também na Zona Oeste. As três descobriram que, na verdade, Renato era divorciado, pai de cinco filhos e que trabalhava como massagista. No interrogatório dado à Justiça no dia do julgamento, o próprio Renato Leandro informou já ter sido preso, processado e condenado por extorsão na década de 1990, ocasião em que cumpriu pena em regime semiaberto. Uma das testemunhas ouvidas no julgamento é uma ex-esposa do réu. Ela narrou que o conheceu como massoterapeuta no Shopping Eldorado e afirmou que ele tinha perdido a mãe durante a crise de Covid-19. Durante a união dos dois, ele nunca tinha pedido dinheiro emprestado e dividia todas as despesas da casa, quando passou a morar com ela. Segundo a ex-esposa declarou, o acusado desapareceu sem maiores justificativas em meados de 2019 ou 2020, voltando a procurá-la somente após 2021. Nesse intervalo, recebeu diversas mensagens nas redes sociais de outras mulheres dizendo terem sido vítimas dos golpes de Renato Leandro. Mas não conhecia nenhuma delas e não sabia do paradeiro do ex-companheiro, a quem tentou ajudar psicologicamente após o reaparecimento. Na sentença que condenou o falsário, a juíza Monica Tucunduva Spera Manfio sentenciou o réu a cinco anos de prisão por estelionato, além de um ano por violência psicológica contra a mulher, negando ao réu o direito de recorrer em liberdade, sob o risco de continuar a atividade delitiva. Renato Leandro também foi condenado a devolver R$ 322.260,00, a título de reparação pelos prejuízos das vítimas. “Os fatos ultrapassaram a esfera de um simples prejuízo financeiro, repercutindo intensamente na estabilidade emocional e na autonomia pessoal da vítima. Valendo-se da confiança e dos sentimentos que ela nutria por ele, o acusado a envolveu em sucessivas situações de suposta urgência, mantendo-a convencida de que os valores seriam restituídos. Em consequência das dívidas contraídas, perdeu o emprego, precisou vender o automóvel e enfrentou intenso sofrimento emocional, chegando a cogitar atentar contra a própria vida”, declarou a juíza. Já formada advogada e com OAB na mão, R.L disse que atuou voluntariamente como assistente de acusação da promotoria durante o processo. Ela também processa o falsário também na esfera cível, para tentar uma correção monetária do valor sentenciado, a fim de tentar pagar o banco que ainda deve. “Não sei se vou reaver esse valor em algum momento, porque não sei se ele tem recursos ou bens para serem penhorados e pagar. Mas me sinto aliviada como mulher, de saber que Justiça foi feita. Foram tantas idas e vindas na DDM, para falar com a escrivã Célia [Dominicali], que me ouviu, ajudar a achar as vítimas, me acolheu. Saber que Justiça foi feira já tirar um peso das costas. É uma vitória da união de tantas mulheres”, afirmou. “Esperamos que, depois de publicado esse relato, mais mulheres se apresentem na delegacia ou na promotoria para denunciar esse estelionatário e aprofundar nossos direitos”, desabafou. O que disse o réu condenado Renato Sérgio Leandro, de 57 anos, está preso desde maio em um Centro de Detenção Provisória de Mauá, na Grande SP. Reprodução A reportagem não conseguiu encontrar a defesa de Renato Sérgio Leandro. Mas na sentença à qual o g1 teve acesso, ele admitiu no julgamento que ter cometido erros e enganado a vítima para conseguir dinheiro, mas negou que tenha iniciado o relacionamento com interesse financeiro. Ele afirmou que usou os valores para custear o tratamento da mãe, que morreu posteriormente, e disse estar arrependido e disposto a devolver o dinheiro. Segundo ele, as dívidas com a advogada se acumularam e a situação virou uma “bola de neve”. O massoterapeuta também relatou ter enfrentado problemas emocionais e depressão. Afirmou não se lembrar de várias mentiras que contou à vítima nem de ter prometido uma indenização judicial superior a R$ 1 milhão. No julgamento, também disse estar arrependido e pediu perdão à vítima.
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