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    Com vasto catálogo de arranjos, maestro de Itararé também foi compositor e tem canção 'perdida' com Vinícius de Moraes

    17 hours ago

    Maestro de Itararé também foi compositor e tem canção 'perdida' com Vinícius de Moraes Apesar da distância de quase 20 mil quilômetros, Brasil e China possuem laços fortes quando se trata de comércio. Entretanto, quando tamanha parceria econômica ainda não era sequer desenvolvida diplomaticamente, os dois países já "flertavam" por meio de uma linguagem universal: a arte. Foi em 1956 que a Ópera de Pequim, capital da China, desembarcou no Rio de Janeiro. A passagem do grupo, que apresentou o jingju - termo utilizado para se referir ao teatro clássico chinês - pela primeira vez no Brasil, foi marcada pela alta procura do público, ampla repercussão na imprensa e, inclusive, por alegações de “infiltração comunista” feitas por jornais da época. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Lindolfo Gomes Gaya nasceu em 6 de maio de 1921, em Itararé (SP). Maestro e compositor, é considerado um dos maiores arranjadores da música brasileira, com carreira que também se estendeu ao exterior. Ele atuou em diferentes gêneros, como bossa nova, samba, MPB e jazz. Na trajetória do artista, a passagem dos chineses teve um significado mais do que especial na carreira. Considerado uma das mentes mais brilhantes por trás dos arranjos de canções de grandes artistas da MPB, o músico chegou a conhecer e trabalhar com Vinícius de Moraes durante a estadia da ópera no país. Murilo Prado Cleto, historiador e autor de um futuro livro sobre a carreira musical de Gaya, contou ao g1 que o maestro foi o responsável pela tentativa de quebrar as barreiras culturais que, devido à falta de conexão tecnológica, ainda existiam à época. "A companhia nunca tinha vindo à América. Hoje em dia, existe um lance de tudo ser muito conectável e, consequentemente, mais fácil de traduzir. Naquela época, existiam muitas barreiras culturais e era necessário alguém para fazer 'a ponte' desse grupo com o lugar que ele está chegando. Quando a ópera chegou, alguém foi atrás dele e da esposa na casa deles, no Rio, para fazer um trabalho junto aos chineses", conta. LEIA TAMBÉM Considerado 'bandeirante do folclore brasileiro', Cornélio Pires lutou contra estereótipo caipira na literatura e deixou mais de 20 livros Ana Lúcia Torre transforma 60 anos de carreira em espetáculo e revela ‘frio na barriga’ antes de entrar no palco: 'Se não tiver, não tem graça' Laura Cardoso fez último trabalho com cineasta do interior de SP e se preparava para novo filme: 'Sempre a protagonista' Ópera de Pequim veio ao Brasil em 1956 Arquivo pessoal Na plateia, Vinícius de Moraes Esposa, esta, sendo ninguém menos que Stellinha Egg - atriz, compositora e cantora conhecida das rádios brasileiras mais famosas dos anos 1940 e 1950. Parceira musical de grandes nomes da cena nacional, como Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi, ela formou um dos casais mais influentes da MPB junto a Gaya, trazendo o erudito para próximo da sociedade brasileira média. A aproximação do casal de músicos com a Ópera de Pequim, na realidade, não aconteceu por acaso. Além de Gaya já ser mundialmente reconhecido como maestro na época, o contato aconteceu após o casal retornar de uma turnê europeia, que passou por 12 diferentes países e contou com uma "força" de uma estrela dos livros: Jorge Amado. "Era uma turnê que ia durar poucas semanas e, no fim, acabaram ficando quase um ano. Jorge Amado ficou muito amigo dos dois e começou a encaixá-los em diferentes lugares da Europa para que eles se apresentassem, inclusive, dentro de viagens de navios. Gaya regia a Orquestra Filarmônica de Varsóvia, em grande parte, graças à intermediação do Jorge", relata Murilo. As apresentações do casal na União Soviética foram bem vistas pelos artistas da época. Com isso, Stellinha conseguiu ensinar 12 canções brasileiras para a cantora principal da Ópera de Pequim. Durante o período, Gaya compôs uma valsa no piano como uma forma de celebrar a amizade com os chineses. "Ele compôs a valsa no piano, chamada 'Doce Amizade', que era apenas instrumental, como uma forma de celebrar a amizade. Eles não sabiam se conseguiriam se encontrar novamente - e muito provável que não. Em um dos dias, o Gaya sentou no piano e começou a tocar a música desprentensiosamente", explica. Stellinha Egg e Gaya formaram um dos casais mais influentes da música à época Arquivo pessoal No entanto, na plateia estava Vinícius de Moraes que ficou encantado ao ouvir a valsa recém-elaborada pelo maestro. Segundo Murilo, o artista apresentaria, pouco tempo depois, a peça "Orfeu da Conceição", considerada um grande marco na história da dramaturgia brasileira. "Ele estava dando uma olhada no que estava rolando no teatro. Vinícius ouviu a valsa e achou 'a coisa mais linda do mundo', colocando uma letra em cima. A música acaba tendo uma conotação de amor romântico, envolvendo uma questão do passar do tempo", conta. Entretanto, Murilo pontua que a canção entre Gaya e Moraes é considerada um "registro praticamente perdido". A valsa, que foi apresentada por Murilo em um evento que celebrou os 133 anos de Itararé, no sábado (22), não é possível de ser encontrada na internet e chegou a ser interpretada por Hebe Camargo. "Ela é tão desconhecida que, se você digitar nos sites de pesquisa, a letra não existe. Tive que transcrever ouvindo diversas vezes, porque não está em lugar nenhum. A música permaneceu inédita até Hebe Camargo lançar um disco todo arranjado e regido por Gaya. A música foi gravada nesse disco", afirma. Para ser lançada em "Hebe e Vocês", primeiro álbum da estrela da televisão, a música foi renomeada como "Encontro à Tarde". Anos depois, a canção também foi regravada pela cantora e compositora brasileira Miúcha, na década de 1990. "Gaya foi facilmente um dos maiores arranjadores do mundo, e o trabalho dele como compositor é muito desconhecido, mesmo entre as pessoas que gostam e entendem de música. Acredito que, no fim, é uma canção perdida. Mesmo com a regravação de vozes conhecidas, não é uma música que você escuta nos tributos a Vinícius", lamenta. 🌟 Estrela ao acaso Gaya atingiu o estrelato por acaso, sem grandes pretensões Arquivo pessoal Apesar de ter trabalhado com grandes nomes da MPB e atingido o estrelato a partir da arte, Murilo diz que Lindolfo Gaya não era um artista ambicioso, ou de grandes pretensões. Com alto domínio do campo harmônico, o artista gostava de compor somente em caso de necessidade. "Quando ele saiu de Itararé e chegou ao Rio de Janeiro, ele começou a trabalhar em um banco, mas queria entrar na música. Ele ia às rádios tocar piano paro os cantores de programas de calouros e, nisso, o pessoal começou a gostar dele. O domínio que ele tinha do instrumento era realmente impressionante", revela. A despretensiosidade do músico também era refletida nas obras enquanto eram construídas. Grande parceiro de Paulinho da Viola que, segundo o historiador, atribui a Gaya uma das maiores "viradas de chave" da carreira, justamente por pensar diferente. "É sobre explorar o papel dele em um processo que podemos chamar de modernização da música brasileira. Paulinho da Viola trabalhou com Gaya e atribui a ele uma grande mudança na carreira, por ter uma concepção mais tradicionalista do uso de orquestração em estúdio. O maestro gostava da simplicidade, de tirar. O que é contraintuitivo, porque ele era arranjador. Isso fez ele se tornar muito popular entre os artistas da bossa nova", detalha. Além das canções, Gaya também era um grande fã de jingles. Nesse âmbito, o compositor chegou a produzir um disco inteiro do humorista José Vasconcellos, considerado um dos pioneiros no stand-up comedy em território nacional. "Existe um disco que Vasconcellos conta histórias de bichos. São jingles e músicas bem curtinhas, de 30 segundos, bem infantis. Ele canta e, logo depois, conta a história dos bichos. Gaya compôs todas. Ele era bom no que fazia, vencendo um dos concursos mais importantes de composição nos anos 1950", compartilha. 📖 Livro conta a vida de Gaya Lindolfo Gomes Gaya nasceu em Itararé e colaborou em diversas produções musicais da MPB Arquivo pessoal Como historiador, pesquisador e, acima de tudo, um grande fã, Murilo está produzindo um livro contando a trajetória do maestro. Gaya começou a trajetória musical em Itararé e morreu em 1981, aos 66 anos, em Curitiba (PR), a cerca de 300 quilômetros da cidade natal. "Ele não só nasceu na cidade, como também começou a carreira musical aqui. Quero lançar o projeto no ano que vem e estou dividindo o livro em diferentes temáticas a explorar. Um capítulo dedicado à infância dele em Itararé, que ele imitava o maestro da família Melilo. Nessa época, já perceberam que ele tinha jeito para a música", comenta. Ao g1, o historiador conta que, depois das “brincadeiras infantis”, Gaya começou a aprender instrumentos com uma professora particular, incentivado pela família e pelo diretor da escola. Ainda adolescente, deixou Itararé e foi para São Paulo para estudar. "De Itararé ele foi para São Paulo, e de lá, ao Rio de Janeiro. Aqui na cidade, ele gostava muito de jogar bola em um clube. Quero falar, também, sobre a inserção do maestro no exterior, já que ele fez duas turnês internacionais", aponta. Na avaliação de Murilo, Gaya foi um dos maiores arranjadores do mundo. “São muitos exemplos de trabalhos de excelência, a perder de vista mesmo. É uma carreira realmente impressionante. Não é nenhum exagero regionalista dizer que o maestro Gaya foi um dos maiores arranjadores do mundo. Mais de 300 discos têm a participação dele como arranjador. Foi diversas vezes contratado para impor respeito aos músicos de orquestras”, finaliza. 📚 Educação e produção musical O interesse de Murilo com a música começou na educação básica, quando formou a sua primeira banda. Ele é doutor em história, formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e atua como professor há 18 anos, no campus Jaguariaíva no Instituto Federal do Paraná. Além disso, Murilo também atua como agente cultural e faz apresentações musicais em bares, casas de espetáculos e teatros na região, desde 2003. Em 2021, ele lançou seu primeiro disco. Também lançou um tributo a Wilson Batista em 2023, comemorando os 110 anos do nascimento do sambista carioca. Além de historiador, Murilo também é músico e atua como professor no Paraná Arquivo pessoal Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
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