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    Barbalha celebra 180 anos com o desafio de manter história e memória preservadas no Cariri

    7 hours ago

    Barbalha celebra 180 anos com história e memória preservadas no Cariri A cidade de Barbalha, no Cariri Cearense, é conhecida como a terra dos verdes canaviais por conta do cultivo histórico da cana-de-açúcar — marcado por grandes plantações, engenhos de rapadura e cachaça. Emancipada em 17 de agosto de 1846, a cidade comemora 180 anos nesta segunda-feira, com o desafio de manter história e memória preservadas. Localizado em uma área de clima ameno e mananciais formados pela Chapada do Araripe, o município reúne fauna, flora e terrenos férteis que atraem visitantes de diversas regiões. O núcleo urbano nasceu em uma colina próxima ao rio Salamanca. Desse primeiro centro, ainda subsistem paisagens e identidades que alimentam a memória do povo barbalhense — materializadas, em sua maioria, por antigos casarões. LEIA TAMBÉM: Restauração de casa histórica vira exceção contra o esquecimento em Juazeiro do Norte Romaria pelos 92 anos da morte de Padre Cícero reúne multidão em Juazeiro do Norte O sítio arquitetônico Hotel Casarão. Darlene Barbosa/SVM A cidade se destaca no Cariri por manter um vasto sítio arquitetônico preservado. Os casarões do centro histórico atraem turistas e pesquisadores com construções dos séculos 18 e 19. Muitas edificações passaram por transformações, como o antigo Casarão Hotel, erguido em 1859 e inspirado nos grandes prédios de Recife. O sobrado de três andares foi construído pelo comerciante Antônio Manuel Sampaio, dono de engenho e da primeira máquina a vapor do Cariri. Ele não chegou a morar no local, pois faleceu no mesmo ano em Recife, Pernambuco. O imóvel contava com senzala no subsolo, armazéns no térreo e residência no primeiro andar, além de um túnel — conhecido como “porão” — que daria acesso ao canavial em caso de invasões à cidade, como a ocorrida em 1914. O prédio já abrigou uma escola de ensino fundamental e, hoje, é sede da Secretaria de Cultura do município. Palácio 3 de Outubro e a preservação pública Foto antiga do Palácio 3 de Outubro. Reprodução/IBGE Outra edificação marcante é o Palácio 3 de Outubro, onde funciona a Escola de Saberes de Barbalha. A estrutura foi construída durante a Grande Seca de 1877 para criar uma frente de trabalho para os retirantes, ficando conhecida como a antiga Casa de Câmara e Cadeia. A parte superior do prédio já abrigou o paço municipal e os poderes legislativo e judiciário. O imóvel é protegido em âmbito estadual. "Temos outros casarões; eram mais de quarenta e três protegidos, e hoje temos trinta e oito em estado de conservação. Barbalha possui sua beleza justamente por esses patrimônios edificados que resistem ao tempo. Temos nosso centro histórico, onde ainda se pode perceber a presença desses imóveis que ilustram mais ainda a cidade", explica o coordenador municipal de Turismo, Neto Sobral. E a cidade está passando por um processo de transformação para manter a memória desse lugar. Barbalha tem esse cuidado, esse zelo com o patrimônio histórico edificado da nossa cidade, que traz esse charme, e a gente pode apresentar aos turistas e visitantes o que a cidade tem de melhor", completa Fé e patrimônio: as igrejas históricas Igreja Matriz de Santo Antônio. Darlene Barbosa/SVM A arquitetura eclesiástica também integra o patrimônio local. A Igreja Matriz de Santo Antônio, marco inicial do município, foi construída na área mais antiga da cidade. A capela começou a ser erguida por volta de 1770, passou por reformas ao longo dos anos e tornou-se paróquia em 1838. Em frente à Matriz, o mastro do Pau da Bandeira é erguido com a imagem de Santo Antônio, padroeiro de Barbalha, dando início aos festejos locais, todos os anos. Embora o templo não seja tombado, a Festa de Santo Antônio é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "O templo foi doado a Santo Antônio para trazer a devoção ao povo de Deus, elevando as suas preces a Deus por intermédio de Santo Antônio. Em Barbalha, era o santo que mais agradava ao coração das pessoas. A partir da transformação em paróquia, essa devoção foi crescendo a cada dia mais", reforça o Padre Joaquim Ivo, pároco da Paróquia de Santo Antônio de Barbalha. Outro destaque arquitetônico é a Igreja do Rosário, um dos templos mais belos do Cariri. A obra começou em 1860, mas só foi concluída no início do século 20. "Os negros não podiam assistir às missas nas igrejas dos brancos, dos colonizadores. A comunidade afro se reunia no sentido de criar os seus próprios templos para fazer suas orações; por isso, se agregava em irmandades. Em Barbalha, eles criaram a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que idealizou a construção do templo para acolhida de suas ideias e religiosidade. O templo só foi terminado no início do século 20 como resposta à conquista do direito à sua religiosidade", explica o historiador Josier Ferreira da Silva. Do comércio às residências particulares Solar Maria Olímpia. Darlene Barbosa/SVM Entre os prédios construídos para fins comerciais, destacam-se a Casa Sampaio e o Solar Maria Olímpia. Fundada em 30 de agosto de 1847, a Casa Sampaio foi o principal ponto comercial de Barbalha por muito tempo. Embora o espaço esteja desapropriado e fechado, sua fachada preserva uma estética saudosista. Já o Solar Maria Olímpia, construído em 1885, é um exemplar do casario do século 19 que unia moradia no andar superior e comércio no térreo. A fachada mantém o alinhamento de portas e janelas entre os pavimentos. O prédio continua com uso comercial embaixo e espaço alugado no andar superior e está localizado em frente à Praça Filgueira Sampaio. Na arquitetura residencial privada, chama atenção a Casa de Mãe Yayá, em frente à Praça do Rosário. Concluída em 1905, a casa tem planta retangular com uma torre central de dupla altura e alas horizontais simétricas. O telhado de madeira e barro, com mãos-francesas e lambrequins, remete aos chalés do final do século 19. O imóvel conta com dois detalhes raros: um mirante e uma cisterna para captação de água da chuva. "Nesses ambientes que são mais preservados, ainda com mobiliário, piso e forro característicos dessa época, a gente percebe um conforto maior, ambientes mais espaçosos, pelas próprias características da época: as famílias eram maiores, recebiam mais pessoas. Com essa preservação, vemos também que as características eram diferentes, como o conforto térmico e a ventilação, que tinham um tratamento totalmente diferente", aponta o arquiteto Renan Teixeira. Ele detalha que "o material era outro: paredes mais grossas, telhados mais altos, aberturas de janelas mais sequenciais. Era muito mais conforto para ser habitado no Nordeste. É muito interessante ver a conservação de uma maneira muito respeitosa. É uma questão muitas vezes sentimental, das famílias que preferem manter para que possam comunicar essa ideia dos antepassados e das famílias para as próximas gerações, e isso é muito importante". O Palacete dos Alencar, erguido em 1817 em frente à Praça da Matriz, é outro marco visual. Ele tem uma torre central de dupla altura ladeada por dois volumes com marcação simétrica de janelas, mantendo a função residencial. A obra foi encomendada pelo Padre Gregório de Sá Barreto, primeiro coadjutor da Capela de Santo Antônio. Por problemas de saúde, ele vendeu a construção ainda inacabada para uma família de fazendeiros e faleceu na Bahia sem ver o projeto pronto. Na época erguido em tijolos crus e sem reboco, tornou-se a primeira construção monumental da vila e segue habitado hoje. Solar Maria Olímpia. Darlene Barbosa/SVM Os desafios da preservação Especialista comenta sobre a memória e a história de Barbalha, no Cariri cearense Apesar do acervo preservado, a cidade perdeu parte de sua memória edificada e enfrenta desafios para manter a história viva. O historiador Josier Ferreira da Silva afirma que "a falta de consciência patrimonial, tanto da população como dos gestores, e a ausência de políticas públicas nesse sentido — a materialidade desses espaços como patrimônio —, levaram a uma condição de desrespeito e depredação dessas localidades na condição de patrimônio". "Até a década de 1970, a cidade se caracterizava pela economia canavieira e agrária. A partir do final da década de 70, houve a estagnação da economia, e o comércio começou a se fazer presente. É essa pressão comercial que vai incidir sobre a estrutura urbana do município. Esses sobrados e armazéns foram sendo demolidos ou reformados para sediar outras funcionalidades comerciais", conta. "Nesse sentido, é necessária uma legislação que contemple a preservação. O que vem sendo sinalizado é uma lei municipal criada há um ano para dar amparo a áreas desprotegidas da zona urbana. É necessária essa consciência, articular a sociedade, fazer um letramento das instituições e autoridades para entender o que é o patrimônio e a cultura como fator de desenvolvimento regional e de promoção do turismo", defende Josier. Segundo a gestão municipal, intervenções estão em andamento para proteger o acervo local. "Está sendo feito todo um trabalho de requalificação desse centro histórico: calçadas com pisos intertravados, com acessibilidade; as ruas estão sendo requalificadas, algumas com novos calçamentos", garante o coordenador municipal de Turismo, Neto Sobral. "A rua da Matriz ainda mantém sua característica com o calçamento original, que é a pedra sedimentar que compõe a nossa região, a Chapada do Araripe. E a gente pode apresentar aos turistas e visitantes o que a cidade tem de melhor, além de vivermos a memória e vermos as tradições dessa cidade, que mantém isso até os dias de hoje", diz Neto. Segundo o coordenador de Turismo, há uma conversa entre o Município e o Iphan: "Está sendo feito um processo de tombamento do Centro Histórico de Barbalha, bem como os nossos munícipes vêm mantendo as suas estruturas, os casarões, de forma particular. Isso é um trabalho em conjunto". A cidade se destaca no Cariri por manter um vasto sítio arquitetônico preservado. Darlene Barbosa/SVM
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